Quarto dia do 4º Encontro Rede Terreiro Contemporâneo de dança

outubro 18, 2015

quarto dia-7

Foto: Victoria Arenque

Cenas de dança, dança urbana em cena

Duas atividades do quarto dia da Rede Terreiro Contemporâneo de Dança evidenciaram produções audiovisuais exibidas no palco do teatro Municipal de Uberlândia, onde também se apresentou o Coletivo Breaking no Asfalto, com o espetáculo Feito Som e Fúria.

O curta Ensaio De Cinema, de Allan Ribeiro, evidenciou a cumplicidade artística de Gatto Larsen e Rubens Barbot na dança, no cinema, na vida. Engenhoso, sutil, com toques de humor e profunda deferência ao cinema, o filme dança em torno de paixões que ampliam o olhar do público e dos próprios intérpretes/personagem/diretor para o alcance de arte. Assim como a câmera transita pelo íntimo, revelando paixões e arrebatamento que alimentam essas figuras feito pão e café à mesa do cotidiano, se abrindo para o mundo, enquadrando vetores de recomeço de outras cenas da vida seja em travelling, fade in, fade out.
A exibição em vídeo de Othelo – Ensaio Coreográfico, protagonizado por Elísio Pitta, oportunizou o contato com uma produção refinada, que articula recursos tecnológicos de montagem e execução à vigorosa presença cênica do intérprete.
Embora um pouco prejudicada pela qualidade de projeção, assistir ao trabalho é constar uma cuidadosa pesquisa dramatúrgica de um texto clássico que insere a figura negra com o protagonista da cena em imbricamentos com a cultura dos orixás. Há uma dinâmica estética e coreográfica que dão à obra um refinamento visual e artístico ímpar, derivando para a imperiosa vontade de ver “ao vivo” a refinada criação de Pitta e seus cúmplices artísticos dessa transposição de dores, angústias e dilemas das tragédias humanas dançadas para o arrebatamento.
Já a apresentação do Coletivo Breaking no Asfalto, com o espetáculo Feito Som e Fúria, afirmou a qualidade e a potência das danças urbanas como linguagem e caminho para a contemporaneidade coreográfica. Não à toa o coreógrafo americano William Forsythe tem dito que o futuro da dança é o hip hop. O coletivo de b-boys mostra executa dança em 3D, reinventa entradas e saídas para o corpo dançante, é vigoroso e preciso, suave e malemolente. Inventa entradas e saídas de cena em sua sempre reinvenção da roda, em sua batalha de recursos e relações coreográficas.
A questão que emerge em Feito Som é Fúria é a sua relação com o palco italiano, suas opções cenográficas e sua amarração dramatúrgica. Há, claro, uma necessidade e uma entrega verdadeira dos intérpretes na ocupação desse lugar que empodera seus artífices, no reconhecimento e na promoção daquilo que “vem da rua” e agora “está no palco”.  Mas não seria, neste caso, a rua o melhor palco para estas cenas?! Ou, enfim, com como aproximar e enfeixar todos estes – repita-se! – vigorosos intérpretes e suas danças numa dramaturgia que acrescente outras dimensões ao – repita-se outra vez, na perspectiva da construção de uma assinatura – outro infinito poder curador do nosso povo que as portas da percepção do hip hop têm aberto à dança contemporânea? A trilha de abertura do trabalho responde um pouco a estas questões, pedindo respeito e valoração aos moleques que dançam. Que assim o seja.
Sobre como fazer a roda girar
A Rodada de Negócios, experimentada pela primeira vez na Rede Terreiro Contemporâneo de Dança, é um mecanismo que tem sido recorrente em encontros de dança e outras vertentes cênicas. Contribui para a dinamização do segmento e fortalecimento de outras perspectivas da cadeia produtiva. Diretor geral do Cena Cumplicidades, festival que atualmente se movimenta as cidades de Olinda, Recife, João Pessoa e Buenos Aires, Arnaldo Siqueira esteve em Uberlândia para a atividade. Com experiência em várias delas, principalmente em outros países, sendo a última em Córdoba, ele diz que a rodada de fato está a serviço da produção artística na medida em que exista oferta.
– Quando se tem boa produção para apresentar aos programadores, aí então é bom para todos, organizadores, artistas e programadores – salienta.
Mesmo sendo esta uma premissa básica e óbvia, Siqueira ressalta que isso não acontece no Brasil. Uma rodada, segundo ele, exige intensidade devido à exiguidade de seu tempo de realização, sendo dois dias uma boa referência. Mas, ressalta oura vez, se não houver uma boa produção a ser mostrada o melhor é promover encontros e espaços de convivência entre os artistas, produtores, curadores e programadores de forma mais informal. Refletindo sobre a rodada da Rede Terreiro, Siqueira diz:
– Embora não tenha agregado grande quantidade, teve um recorte interessante ao se voltar para a estética negra. Um viés internacional nessa produção seria ainda muito mais interessante. Aqui na rede, o recorte é inovador e a produção que veio foi muito significativa. Foi uma satisfação falar com estas pessoas e conhecer suas produções.
Siqueira também fala da possibilidade de se pensar em pequenas apresentações dos trabalhos das rodadas. Pockets apresentações de cerca de 10 minutos, com recortes dos trabalhos negociados, em salas específicas, de forma a complementar as conversas e os material deixado aos curadores e programadores seriam mais um mecanismo de qualificação deste tipo de atividade.
Nesses encontros, às vezes o resultado pode não ser imediato, mas abre a possibilidade de aproximar os segmentos, para possíveis negócios futuros. – A gente conhece os artistas, descobre a envergadura do trabalho, a seriedade e o perfil dele, e isso nos ajuda em programações futuras – destaca o curador, apontando outra constatação nesse processo:
– Às vezes a rodada mostra que o artista não está bem preparado para falar do trabalho dele.
A função de programador e curador também são questões pontuais para a construção de rodadas de negócios ainda mais produtivas. Siqueira pondera que são funções de origens e aplicações diferentes. A dificuldade é alinhar e agregar esses trabalhos não num sentido estético, mas também pensando nele. Contextos como cidades, público, devem ser pensados. E mais:
– O curador precisa pensar onde está quem ele quer atingir, se um público mais específico, ou público mais comum. Uma curadoria articula ou não esses elementos. A dificuldade é articular todas estas questões colocadas e pensar em que informação de dança para atualizar repertórios, contemplando expectativas, oferecendo olhares e recortes diferenciados, mostrando para o público que há varias possibilidades de olhara dança – diz, acrescentando:
Para Siqueira, a curadoria é um exercício de totalidade, pois trabalha com sub curadores e alinhada com os programadores.
– Mas, no todo, a missão é oportunizar ao público, à cidade e ao cidadão, assistir a trabalhos artísticos, ampliando o acesso dele às informações. Esta é a missão cidadã das curadorias e dos festivais. Um curador se encaixa numa proposição de sociedade, com perspectivas políticas e sociais. É um trabalho que tem muitas interlocuções. O bacana de uma curadoria é que ela agrega de uma maneira tal as margens das de sua própria produção de forma que as coisas funcionem com organicidade e se irradiem como informação organizada.
Desenvolvendo assim seu trabalho, Arnaldo Siqueira tem experiência de mais de duas décadas e, no Cena Cumplicidade, desenvolve ações que integram cidades em torno da dança, num projeto de ativismo artístico que integra instituições, ONGs, espaços, grupos, artes e artistas. Dialoga também com instituições internacionais, no sentido de trazer informações e inserir sua região no calendário internacional.
A partir desta trajetória, Siqueira percebe cada vez mais o Cena Cumplicidades como uma plataforma de ações que, em Olinda, se esparrama pelo mapa, ladeiras e lugares, com atividades de música e artes, teatro e outras manifestações, que cada vez mais encontra cúmplices fruidores da possibilidade do entendimento da arte como mecanismo de promoção da cidadania.
Programação deste sábado
Na Oficina Cultural:
Das 9h às 17h – Oficina Teórica – Inovação em Projetos Culturais, com André Martinez
Das 14h às 17h – Oficina de Dança – Dança Negra Contemporânea> procedimentos criativos, com a Nave gris Cia. Cênica
No Teatro Municipal de Uberlândia
Das 19h às 20h, Conversas com o público – Mediação Gatto Larsen e participação da Wultos Cia de Dança e Nave Gris Cia. Cênica
Das 20h às 22h, espetáculos Do Ouro ao ferro, da Wultos, e Dikanga Kalunga, da Nave Gris
 
Carlinhos Santos é historiador, jornalista, crítico de dança, especialista em Corpo e Cultura e Mestre em Educação
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