Quinto dia do 4º Encontro Rede Terreiro Contemporâneo de dança

outubro 18, 2015

quinto dia-10

Foto: Victoria Arenque

Terreiro em transe, oferenda coreográfica
Uma conversa sobre os jeitos de manter companhias ou grupos cujo recorte de seu fazer artístico contemple questões da cultura negra movimento a noite de quinto dia da Rede Terreiro Contemporânea de Dança, no hall do Teatro Municipal de Uberlândia. Gatto Larsen, da Cia. Rubens Barbot Teatro de Dança mediou falas de integrantes da Wultos Cia de Dança, de Uberlândia, e da Nave Gris Cia. Cênica, de São Paulo.
Embora rápida, a conversa evidenciou que, se as especificidades desse fazer são um desafio, existem respostas e conquistas que afirmam a pertinência desta opção. O corpo híbrido, a dramaturgia específica, o ritual como alavanca da cena são questões de demarcam a trajetória de Nave Gris. Na fala de seu dramaturgo, Murilo de Paula, ficou claro que essas referências religiosas são aportes para a criação artística que precisa, sim, ter liberdade para transitar em cena. “Não levar o ritual para a cena é uma questão ética”, destacou Murilo. Nesse viés, um dos representantes da Wultos também destacou que “o que é dança afro não vira candomblé, mas tudo o que é candomblé, pode virar dança afro”.
Nos dois casos, a atuação desses grupos sofre os percalços das poucas possibilidades de manutenção devido a pouca oferta de editais para estas formas específicas de criação, reafirmando a questão recorrente da invisibilidade para da dança negra no contexto da produção coreográfica brasileira. O tema emerge, de novo, como uma questão que precisa estar no centro das discussões.
Então, isso vai para o palco, que teve dois momentos pontuais, espelhando justamente as apropriações das danças e das figuras dos orixás. Quando a Wultos mostra trechos de suas montagens em Do Ouro ao Ferro, há uma preocupação clara da mimese e da reverência. Então, ás vezes a repetição trai a inovação.
Mas o tambor retumba invenção quando a Nave Gris transita pela cena. Dikanga Calunga é terreiro em transe, oferenda coreográfica que reverbera e irradia profunda beleza, intensa devoção e arrebatadora competência artística que deriva da ritualidade corporal. O recital da religião dos calos, o mar de trânsito entre céu e terra, reverência e invenção, são uma festa do corpo, organização e reorganização de informações que configuram uma dança potente. Qualidade que brota justamente de uma atenção às trocas possíveis entre o ambiente da religião e as possibilidades da criação artística.
Nesses calcanhares da terra, Kanzelumuka é deusa, deusas. É cavalo de fluxos entre o ancestral e o contemporâneo. Feminino que se reparte em divindades, é ousado, intenso, fractal de morte e vida, de nascer e renascer, de dançar frêmitos. Iansã na pista disco sensualizando! Frescor e liberdade para ocupar a cena com intensidade que se esparrama do palco ao público. Diáspora de bons eflúvios, evoés, orixás. Saudades do mar, saudação às passagens.
A qualidade e a competência do trabalho da Nave Gris se esparramam pelos demais recursos em cena, da música ao vivo à luz e aos figurinos que dão ainda mais eloquência ao que se está dançando. São águas lustrais que irrigam os caminhos possíveis da dança contemporânea brasileira.
Programação deste domingo   Na Oficina Cultural:
Das 9h às 17h – Oficina Teórica – Inovação em Projetos Culturais, com André Martinez
Das 14h às 17h – Oficina de Dança – Dança Negra Contemporânea> procedimentos criativos, com a Nave gris Cia. Cênica
No Teatro Municipal de Uberlândia
Das 19h às 20h, espetáculos Signos, da Cia Rubens Barbot Teatro de Dança 20h30min, Cortejo de encerramento com o terno de Congado Estrela Guia
 
Carlinhos Santos é historiador, jornalista, crítico de dança, especialista em Corpo e Cultura e Mestre em Educação
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